Monday, October 22, 2007


Alguém dizia noutro dia que tinha saudades dos Radiohead antigos.
Sendo que Radiohead é a minha banda favorita em actividade (aquilo que os Pixies andam a fazer não pode ser considerado "actividade"), sinto-me compelido a escrever qualquer coisinha sobre o assunto.

Antes de mais há que constatar algo: os Radiohead são, neste momento (e já de há uns anos para cá), uma banda completamente endeusada por fãs e crítica especializada (algo bastante raro na história do Rock - normalmente quando o público gosta, a crítica não gosta e vice-versa). Como li há uns tempos já não sei onde, são a pequena maior banda do mundo. Não há hoje em dia publicação que não diga maravilhas da obra de Thom Yorke e companhia. Dos fãs então nem se fala: salas continuamente esgotadas em poucas horas, milhões de álbuns vendidos, milhares e milhares de T-shirts encomendadas online, etc. Os Radiohead nunca se renderam à megalomania de outras grandes bandas (que dão super concertos e gastam milhões em produção e vídeos), não falam nem expõem absolutamente nada acerca da vida pessoal de cada um mas, no entanto, todo o Universo sustém a respiração antes de cada novo álbum...
Qual é o segredo?

O primeiro álbum ("Pablo Honey") vendeu razoalvemente bem (muito por culpa do hino "Creep") o que levou imediatamente muita gente nesta altura a colar à banda o rótulo de "one hit band".
O segundo álbum ("The Bends") teve já uma aceitação muito aceitável por público e crítica, tendo sido unanimemente considerado um dos melhores desse ano. Aparentemente a fórmula estava encontrada: a voz de Yorke a soar melhor que nunca em canções simples e ultra melodiosas. Naturalmente (e quase imediatamente) os clones começaram a surgir. Muitas bandas começaram a sair das garagens e a assinar contratos discográficos usando fórmulas e registos vocais muito parecidos. Se nesta altura do campeonato os Radiohead não tivessem alterado nada, neste momento seriam apenas mais uma dessas boas bandas. Teriam certamente continuado a vender bem (o seu pioneirismo não seria decerto esquecido) e teriam todos muito dinheiro e sexo e fama e tudo. E as coisas acabariam bem para todos.

Eis então que os senhores de Oxfordshire fizeram "OK Computer".
Sobre este álbum já tudo foi dito e não vale a pena dizer mais nada. Torna-se num dos álbuns mais marcantes da década de 90 e faz a banda destacar-se ainda mais de tudo o resto. Finalmente o reconhecimento global e unânime era atingido e a banda fez recair sobre ela os olhares daqueles que até aí tinham andado distraídos. Mas quem eram aqueles gajos, afinal?
Com o estatuto de génios já adquirido e o seu estilo já completamente demarcada parecia que agora é que era. A fórmula era esta!

Mas, mais uma vez, Thom Yorke decidiu que não era bem assim. A música electrónica (até aí apenas levemente presente em "OK Computer") torna-se numa obsessão e, quase de uma assentada, surgem "Kid A" e "Amnesiac".
Apesar do romper quase a 100% com as origens, ambos os álbuns instalaram-se confortavelmente no 1º lugar dos tops de vendas de vários países espalhados por todo o mundo. Uns amaram, outros odiaram. Uns diziam que era arte pura, outros diziam que aquilo já não era Radiohead, que era esquisito demais. Mas ninguém lhes ficava indiferente. Afinal, apesar da maior parte das canções serem bizarras e quase totalmente electrónicas, quem é que podia ficar indiferente a temas como "Everything in Its Right Place", "Idioteque", "Pyramid Song" ou "Life in a Glasshouse"?

Dois anos volvidos e o equilíbrio parece ter sido encontrado com "Hail to the Thief". Mais músicas fabulosas num misto (de proporções quase iguais desta vez) de electrónica e guitarras. Seria este o amadurecer da banda? Estaria agora finalmente encontrada o canal através do qual Mr. Yorke comunica com as restantes pessoas? Eu pessoalmente estava convencido que sim.
Quando soube que este último álbum ia sair fartei-me de matutar acerca de como seriam as suas texturas e as suas formas.
Escusado será dizer que me saiu tudo ao lado.

Não vou dizer que adorei "In Rainbows" da primeira que o ouvi. Confesso que o achei esquisito e difícil de digerir. Como uma iguaria estranha que nunca se provou.
Mas, mais uma vez, Thom Yorke está à minha (nossa) frente. A inovação aqui assentou essencialmente nos formatos das músicas. Para quê refrões? Para as músicas entrarem mais facilmente nos ouvidos das pessoas? Para quê? Se tiverem de entrar entram e se não tiverem de entrar não entram. Não é esse o objectivo dos refrões na música popular? Um pedaço da canção que se repete de tempos a tempos e cujo objectivo é fazer com que mais facilmente nos lembremos dela?
Só posso dizer que neste momento estou absolutamente viciado e ainda não consegui ouvir mais nada desde que o álbum saiu. Parece que, contariando o senso comum, as canções ao não obedecer aos formatos padrão se tornam menos vulneráveis.
Em suma, brilhante!
Quanto à apreciação individual de cada uma das canções, nunca conseguiria fazê-la tão bem quanto esta.
E nem vou agora abordar a forma como este álbum foi editado. Até aí a inovação está presente. Sobre isso também já muito foi dito. Será tema para outro post um dias destes.

Voltando à ideia inicial que me fez escrever isto, aquilo que torna os Radiohead na tal pequena maior banda do mundo é justamente a capacidade de se reiventarem a cada momento. De surpreenderem. De nunca pensarem que encontraram a pedra filosofal. Do bom senso e da humildade de toda a banda em deixar sobressair o génio musical e as paranóias de Thom Yorke. De furarem através do mainstream com coisas tão pouco mainstream (pelo menos até à altura em que são editadas). E sempre nunca descurando aquilo que no fundo é o âmago da sua existência: as canções.
Eu não tenho saudades dos Radiohead antigos. Quando tenho saudades de ouvir "The Bends" ouço "The Bends". Como posso eu ter saudades sabendo aquilo que teria perdido se as coisas tivessem continuado sempre iguais?

3 comments:

Morning_Theft said...

Ora aqui está um dos posts mais bem escritos da história dos blogs...

Muito bom...

Morning_Theft said...
This comment has been removed by the author.
lubalécio said...

E estaria em qualquer jornal, revista, site, mural, tecto, porta de casa-de-banho, diário, caderno, post it com o mesmo brilhantismo e idoneidade. É o melhor texto que li sobre Radiohead.